O que meu superego sempre me acusa é de não tomar posição sobre as conjunturas mais importantes da vida. Ele me diz: Meu pobre Charlles, você não é de esquerda, mas acha que o Estado deveria tomar mais participação no controle social; você não é de direita, mas abomina a esquerda praticada no Brasil e em boa parte do restante do mundo; você ama Dostoiévski, mas tenta se comportar afinado ao ideário de Tolstói; você prefere os Beatles, mas seu disco de rock preferido é um dos Stones; você é adepto de todos os direitos das mulheres, mas zomba da Lola; você é a favor das minorias institucionalizantes, mas em debates sobre discriminação racial você, o marco da miscigenação nacional, relativiza até as últimas instâncias a importância da dor na história dos desmandos; você vive num universo paralelo de erudição mas muitas pessoas se assombram ao ver que o caipira de todos os dias é um especialista em V.S.Naipaul. Em suma, me diz meu superego, não sei nem por que me esforço em tecer tais comentários, pois não há nada em que você menos acredita que nessas entidades da psicologia das quais eu pertenço.
Pois bem, e esse não é um texto de humor, apesar do começo descolado. Esse é um texto sobre acontecimentos das últimas semanas na vida do sempre por cima do muro, enraivecido e explosivo Charlles Campos. Vou procurar resumir.
Há uns três meses um estuprador de criança montou uma serralheria na esquina do quarteirão de cima da minha casa. É um rapaz que deve ter a minha idade_ 38, 39 anos_, metade da minha estatura, bochechas gordas, sardas, e um olhar introspectivo e um jeito ensimesmado que parece ter demasiada consciência do cartão de visitas que é sua sentença judicial. Ele estuprava sua afilhada desde que ela tinha 8 anos; a ameaçava de morte se ela contasse o segredo para alguém. Mas um dia, a menina desabafou para uma amiga de escola e essa amiga denunciou à professora. Foi um começo bastante tardio para as providências policiais, pois no primeiro exame médico constatou-se que a menina já estava no terceiro mês de gravidez. O estuprador foi preso, passou uns quatro meses na cadeia pública, enquanto a população fomentava com ânimo mais um imaginário das circunstâncias paradoxais que fazem homens aparentemente trabalhadores, humildes e de bem, caírem em crimes hediondos desse calibre sem que nunca se suspeitasse o mínimo de sua brutal vida secreta. Era mais um entre tantos crimes de estupro de crianças que se noticiam por aqui. Porém, como sói acontecer em um estado em que uma de suas arquiteturas tombadas como patrimônio nacional é um extenso muro de pedras construído por escravos cortando toda a Serra Dourada, a juíza de direito da cidade decretou que o acusado seria posto em liberdade e cumpriria a pena no regime aberto. Simples assim. Como se de um gesto um relâmpago cortasse os céus e deus entendesse que o maior dos pecadores seria sumariamente perdoado. Na sala dessa juíza, que se diz praticante do espiritismo e médium sensitiva, existem livros de todas as vertentes pentecostais e kardecista que se possa imaginar, e conta-se que para deixá-la feliz ou conseguir algum benefício prévio sobre uma causa, é só ir lá tomar uma dessas doutrinas emprestada que os devotos olhos da mulher se iluminam.
Eu sabia que o serralheiro era o estuprador, e já fazia três meses que ele trabalhava ali, a cem metros aqui de casa. Mas nada disse à minha esposa, porque nunca suspeitava que disso pudesse sair algum problema de órbita pessoal. Minha filha Júlia, de um ano e sete meses, faz bastante sucesso na cidade. Há mesmo um fã clube entre mulheres da terceira idade que se desabrocham ao vê-la dando tchau e mandando beijos. Entre o circuito de pais, nós somos bastante requisitados para festas infantis e passeios de domingo no parque, coisa que ao mesmo tempo me chateia e me dá muito gosto. Pois bem. Por duas vezes a Dani, minha esposa, disse que chegava ao pátio de frente aqui de casa e se deparava com um sujeito em aparente conversa com a Júlia, a olhando pelas grades do portão. Em uma terceira vez, o rapaz disse que a Júlia era muito linda, e que o pai deve ter muito ciúmes dela. Eu imaginava que tal sujeito fosse o coitado de um bêbado poético pra lá de inofensivo que a mim parece um desses espíritos livres que integra a classe distinta de loucos amáveis da cidade, que todos os dias passa por aqui e troca algumas palavras ou comigo ou com meu cão. Mas na terça-feira passada, ao passearmos de carro com as crianças, a Dani aponta para o serralheiro e diz: Olha lá, é esse rapaz ali. Eu engoli em seco, senti todo o meu corpo tremer e meu estômago se revirar; deixei-os na porta de casa, esperei que entrassem e fechassem a porta, saí do carro e me dirigi até a serralheria. Eu estava literalmente cego de ódio. Nunca senti algo tão límpido na minha vida, uma decisão tão inexorável. Entrei na serralheria e encontrei o sujeito sentado num tamborete de madeira. Eu estava tão fora de mim que só percebi que me seguravam uns seis homens que surgiram do nada, enquanto eu alertava com todas as letras para o estuprador que se ele passasse de frente à minha casa, se ele dirigisse o olhar para mim ou para alguém da minha família, ele iria se ver comigo. Não foi um de meus momentos mais honrosos, pois eu gritava e tentava de toda maneira chegar até ele. Saí dali, entrei no carro, e não sabia para onde ir. Só estava na minha mente um monstro como aquele diante a minha filha, rindo para ela. Eu dirigi pela cidade em um estado próximo da morte. Parei ao lado de uma lago onde trabalhadores municipais estavam construindo uma pista de caminhada, peguei o celular e liguei para três amigos meus policiais, do tempo em que eu havia sido um agente de segurança do estado. Um deles deu resposta afirmativa a meu propósito: ele tinha uma pistola 380 nova em folha que poderia me vender por camaradas 1. 700 reais. Marquei buscá-la em Goiânia dois dias depois. Voltei para casa e na serralheria já haviam umas dez pessoas que falavam pacientemente com o estuprador e me olhavam com aquela suspeição de abafadas reticências que eu só vi no olhar dos vizinhos de Joseph K. e num episódio do Twilight Zone em que satanistas de óculos escuros olhavam ao personagem principal antes de sacrificá-lo a Baal. Eu não aguentei. Fui para lá e novamente gritei ao criminoso as minhas exigências. Eu não estava nem um pouco mais controlado, mas me lembrei da defesa em que um advogado amigo meu fez de um réu que esfaqueara a sangue frio um homem desarmado mas duas vezes mais alto que ele. Esse amigo, quando me vira entrar na sala de julgamento, teve um insight ao me apontar para os jurados e dizer: se um homem assim do tamanho do Charlles Campos partir para cima de você, mesmo desarmado, abre todas as prerrogativas para que você use alguma arma para se proteger legitimamente dele. Qualquer daqueles ferros na mão e o desgraçado poderia usá-los contra mim, e dentro da lei.
No outro dia vieram me intimar por ameaça e injúria, já que eu gritava a todos os passantes que o sujeito era um estuprador de crianças. A delegada, ao contar minha versão dos fatos, alegou que o que o sujeito havia feito não tinha nenhuma tipificação legal, não sendo crime. Eu olhei para a delegada e disse, embasbacado, que um estuprador condenado poderia parar de frente à minha casa e falar com minha família, e se eu o rechaçasse, o culpado seria eu? Ela disse que infelizmente, sim. Eu me levantei e disse que ela era uma negligente por não querer fazer os procedimentos cabíveis de TCO contra o sujeito. A delegada exigiu respeito da minha parte, senão me processaria por desacato. Eu disse que não a estava desacatando, mas expressando minha liberdade de opinião em criticá-la por sua negligência e omissão. Me dirigi ao MP e expliquei a situação, ao que eles mandaram um memorando para a delegacia solicitando que a delegada fizesse o procedimento em meu favor, pois tal ação do serralheiro era sim uma contravenção penal (Importunação Ofensiva ao Pudor, artigo 61). Hoje recebi mais um TCO por desacato por parte da delegada. Me lembrei de meu amigo Galheb que diz não ser mérito ter esclarecimento numa sociedade como a nossa. Como praticamente eu não sei viver sem a leitura e sem a busca pelo esclarecimento, chegou a hora de me posicionar. Coloquei o site da Lola no meu reader. As mulheres são mesmo os negros do mundo. Não é exagero uma virgula do que ela diz por lá. O reacionarismo é a salvação para um caos moral que acontece por todos os cantos e sob nossos narizes. Uma juíza estúpida, que se acha segregada da sociedade por tanto poder e benefícios, e ainda cheia de magnitudes religiosas que a arvora grandezas espirituais acima do nosso nível de simples mortais, colocou em liberdade, ainda que sob sentença, um sujeito que praticou o mais hediondo dos crimes. Como a sociedade local sabe que o crime foi praticado, mas o Judiciário absolveu o acusado, todo o fardo caiu por sobre a menina. Ela, aos 8 anos, foi quem o seduziu, quem o desgarrou da linha reta da plena funcionalidade familiar. De forma que são vistos em passeios e nas compras, o homem, a bebê resultado do estupro, e a mãe da menina estuprada. A vítima fica em casa, exilada dos olhares, recebendo de frente as convoluções da experiência que reafirmam constantemente que o inferno maior para ela ainda está por vir.














